Toti

“Deixei tudo para trás”, “queimei os meus navios” são frases comuns a quem precisa entrar no deserto que é começar a vida em um país estrangeiro, muitas vezes, sem conhecer a língua local, a cultura. Manter a identidade, até mesmo a estabilidade emocional, em meio a tantas mudanças bruscas, torna-se um desafio.

Nesse cenário, a Toti, surge para promover transformação na vida de refugiados e migrantes por meio de conexão entre tecnologia, educação e diversidade.

Mais do que uma capacitação para trabalhar com tecnologia, a Toti ajuda a resgatar a valores, sonhos e perspectivas de uma vida melhor, promovendo a independência de seus alunos com oportunidades de emprego digno, o que dá, a eles, subsídios suficientes para sustentarem seu lar ou sua família.

A responsável por essa nobre missão é a Bruna, empreendedora que participou do ProLíder em 2019. No terceiro período da faculdade de Negociações Internacionais do CEFET/RJ, ela aprendeu mais sobre a causa dos refugiados e viu que era algo muito mais profundo do que se costuma ver nos noticiários. Na época (2016), 500 mil pessoas no Brasil se encontravam nessa situação - em 2021, esse número já passou de 1,2 milhão de pessoas.

A conexão da empreendedora carioca com o tema permitiu a criação de um negócio social presente em diversos Estados do Brasil, que dá, a pessoas refugiadas, o conhecimento e a capacitação em tecnologia necessários para conseguir carreiras promissoras no mercado. A Toti já é um dos principais veículos de apoio à causa dos refugiados da ONU no Brasil, e tem ambições de alçar voos maiores - para a América Latina e para a África.

A criação da Toti foi a materialização do sentimento de empatia profundamente enraizado na Bruna, que já carregava dentro dela, latente, uma empreendedora. Estudar mais sobre o assunto e entender como seria possível gerar impacto nesse segmento da população foi um caminho natural seguido por ela.
"A empregabilidade sempre foi um ponto muito forte para esta população. Eles têm dificuldade de conseguir emprego, e pensamos que, se conseguíssemos ajudá-los com isso, poderíamos ajudá-los a gerar renda e mudar a vida dessas pessoas."
Inicialmente, testaram de tudo: desde cursos de culinária até de cuidador de idosos, em parceria com a Cruz Vermelha. Segundo Bruna, "esses cursos eram muito demorados e não geravam, para eles, uma perspectiva de crescimento de renda que gostaríamos naquele momento. A partir daí, testamos na área de tecnologia."

Começaram, então, a botar em prática a sua nova ideia. E deu certo: em 2018, fizeram um crowdfunding e formaram 4 jovens no primeiro curso da Toti - sem ter nenhum programador na equipe. "A partir daí, vimos que era possível fazer algo de qualidade e aumentar a quantidade de pessoas formadas. Precisávamos apenas da base e do conhecimento empreendedor necessário."
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Um ano após o nascimento da Toti, Bruna, junto com seus colegas, cofundadores, decidiram que realmente queriam abraçar o negócio e dedicar parte de suas vidas a ele. Diante disso, ela passou a trabalhar no empreendimento em período integral, inicialmente, como voluntária. Neste momento, abriu o CNPJ e buscou maneiras de conseguir se especializar no conhecimento necessário para fazer a empresa deslanchar.

"2019 foi também o ano em que eu entrei no ProLíder. Cresci muito, porque comecei a pensar em negócio. O pouco que eu havia aprendido sobre o assunto foi dentro da Enactus, o que me ajudou muito. O próximo passo foi entrar no ProLíder e aprender a tornar aquilo rentável e gerenciá-lo, e não viver apenas de crowdfunding. [...] A gente precisava muito do ProLíder."

Com o programa e a dedicação que sempre mostrou, os resultados começaram a vir. Novas turmas foram formadas, e a Toti deu o seu primeiro passo para além das fronteiras do Rio de Janeiro: estabeleceu-se em São Paulo, local de uma das maiores comunidades de refugiados do Brasil.

Foi nesse mesmo ano que a Toti foi tomando os ares de negócio social que a equipe fundadora sempre sonhou: "não queríamos que nossos alunos pagassem as contas, pelo âmbito social do negócio. Vimos, também, que as empresas pagariam para contratar essas pessoas. Quando validamos isso, começamos a melhorar a experiência do curso como um todo e fornecer mais serviço para quem pagava a conta. [...] Vtex, Grupo Globo, Raízen e Amaro são algumas empresas bacanas que contratam, de forma recorrente, nossos alunos."

Empreender é tomar riscos

O crescimento e o desenvolvimento da Toti não são indicativos de que o caminho foi fácil. Na verdade, foi muito difícil e envolveu uma grande quantidade de riscos.
"O maior questionamento que se passa na cabeça de todo empreendedor é o risco que está sendo tomado. Sempre busquei muito a minha autonomia financeira: trabalho desde os catorze anos, já fui recepcionista de salão, vendedora de loja... [...] Eu não tive experiências corporativas e isso me gerou medo de que tudo poderia dar errado. Mas este receio faz parte do dia a dia de quem empreende, e ver o resultado positivo é o que mais me orgulha do caminho que escolhi."
A Toti começou com uma campanha de financiamento coletivo e uma equipe grande de pessoas trabalhando voluntariamente. Atualmente é possível tirar o sustento próprio da empresa, o que não diminui a quantidade de desafios que ainda enfrentam.

"Eu vejo que a gente começou a pensar no modelo de negócio em 2019. A gente bateu muito a cabeça, tentou vender um produto que não fazia sentido. Já houve muitas situações em que pensamos que seria o fim, mas sempre demos um jeito de dar a volta por cima."

Toda essa história motiva Bruna a ir além. Em 2020, a empresa, que contava apenas com os fundadores, pôde concretizar sua primeira contratação. "Ficamos muito felizes de dar oportunidade para outras pessoas se monetizarem através da Toti. Estamos fazendo mais contratações ainda em 2021." O time está crescendo, para caber toda a ambição de Bruna para a empresa.


O FUTURO

O Brasil está ficando pequeno para Bruna. No momento, a Toti vai para os locais onde o contingente de refugiados e migrantes no Brasil é maior - por isso, está no Rio de Janeiro, São Paulo e em estados do Norte do Brasil, como Roraima. Os próximos passos serão atender à demanda de refugiados fora do país - principalmente na América Latina e na África.

"Eu quero muito que a gente faça turma e forme pessoas fora do Brasil. [...] Eu quero trabalhar com a Toti em todos os Estados do Brasil, também na América Latina e em países da África. Para mim, como internacionalista, fazer parte dessa transição será um grande sonho. [...] Quero também me dedicar ao que me faz bem, esporte, família etc. Também quero ajudar mulheres empreendedoras que estejam tirando os seus negócios do papel. Ainda tenho muito a aprender."

O ProLíder é uma realização do Instituto Four.