Infill: Agora a NASA vem!

       Esse é um meme muito conhecido aqui no Brasil, frequentemente usado para algum invento de pessoas muito criativas, que solucionam problemas com o que têm em mãos, especialmente quando a necessidade é muito grande e o material é escasso ou muito dispendioso.        

A favela é um celeiro maravilhoso para talentos que precisam se reinventar todos os dias para sobreviver ou estudar. Tudo o que deveria ser muito normal a qualquer cidadão, chega com uma dificuldade absurda para quem mora na favela. Não é incomum ouvir que um morador de lá é um sobrevivente, tamanha são as dificuldades.        

Imagine um lugar sem infraestrutura básica, como água e esgoto, calçamento (com manutenção regular), segurança, educação de qualidade e, unida a isso, a falta de estrutura familiar, como mães (muitas vezes, solteiras) que precisam deixar seus filhos com alguém para poderem trabalhar, outras que deixam seus filhos menores com os maiores, que acabam se criando sozinhos, ociosos a maior parte do tempo. É um cenário desolador, mas que não define quem são seus moradores.

A primeira vez que criou uma impressora 3D com sucatas, Lucas Lima deixou muita gente boquiaberta, talvez até dizendo: “com certeza, agora a Nasa vem!”

Entendendo que, mesmo diante das dificuldades, poderia ser protagonista de sua história, Lucas Lima, carioca da gema, viu a possibilidade de democratizar o acesso à tecnologia nas favelas através da criação de impressoras 3D, a partir de sucatas eletrônicas. Foi com esse desejo no coração que nasceu a Infill.
O ABISMO DO TÚNEL

No Rio de Janeiro, um túnel muito conhecido liga a zona norte, área de periferia, à zona sul, área nobre da cidade. É muito simbólico porque o que deveria servir para fazer ligação, unir, mais parece um abismo, um ponto escuro que separa dois mundos homericamente diferentes.

O Rio de Janeiro tem um abismo social do antes e depois  do túnel e, a partir da impressão 3D e outras tecnologias desenvolvidas para favelas, quis sanar a dor de levar tecnologia para quem realmente precisa.        

Lucas foi dar uma palestra na cidade de São Gonçalo/RJ, em uma escola da rede pública de ensino, onde apresentou sua impressora 3D. Todos ficaram maravilhados, e a pergunta que dominou a sala foi se os alunos poderiam fazer algo igual ao que ele fez. Isso gerou um grande incômodo nele; entendeu que precisava compartilhar seu conhecimento, e viu nisso seu propósito como empreendedor.

Por isso, nasceu a Infill, com intuito de criar um Instituto de tecnologia dentro da favela e levar tecnologia e ensino de qualidade a todos.O conhecimento seria um caminho importante para diminuir o abismo social.

Mais que um túnel, Lucas estava começando a projetar e construir uma enorme ponte entre o maravilhoso mundo do conhecimento e as pessoas que não têm acesso a ele.
O LUXO DO LIXO

Quase todo empreendimento passa por dificuldades. Não foi diferente com Lucas, a começar pelos recursos escassos. Formado em Engenharia Mecânica, ele foi estagiário e bolsista CNPq, ganhava R$400 por mês na época. Era tudo o que tinha. Lá na faculdade ele tinha acesso a uma impressora 3D. Ficou fascinado com ela, queria ter uma, mas não tinha dinheiro para comprar e pagar as taxas de importação. Foi nesse contexto que ele decidiu montar uma com sucatas eletrônicas. Deu certo!

"A maior dificuldade foi o dinheiro porque eu era duro! Quando iniciei a Infill, eu era bolsista CNPq, ganhava R$400 por mês, e era bem complicado, por isso eu comecei a empreender com sucata eletrônica."

Ali, bem diante dos olhos dele, estava a concretização de algo que parecia impossível.

Ele poderia democratizar esse conhecimento, levando várias crianças, que estariam ociosas, talvez brincando na rua, a aprenderem algo de muito valor, que levariam para toda sua vida. Ele não ensinaria a fazer impressora; na verdade, plantaria sementes boas em solo fértil.

AS DIFICULDADES DE UM INVENTOR

A falta de conhecimento e a burocracia brasileira foram grandes barreiras no estágio embrionário da Infill. Teve que aprender tudo do absoluto zero! Sem ter noção de como abrir uma empresa e sem saber nada no ramo de empreendedorismo, Lucas abriu um MEI como artesão plástico, pois não havia uma categoria para inventor independente ou desenvolvedor de tecnologia.

Com o que tinha em mãos, deu o pontapé inicial, recebeu mentorias, que foram preciosas para o desenvolvimento da microempresa, de Léo José e Priscila Kadete, que ainda o mentoreiam há quase três anos. Para custear as despesas e impulsionar a Infill, Lucas contou com prêmios recebidos da Shell Iniciativa Jovem, da Juventude Empreendedora e do Programa de Aceleração da Cervejaria Ambev.

"Isso foi fundamental para tirar meu projeto do zero e transformar no que ele é hoje, uma microempresa de pesquisa de desenvolvimento de soluções voltadas para favelas."

Quando a Infill surgiu, em 2018, o objetivo era a criação de uma fábrica-escola de impressoras 3D. Lucas estava se estruturando para levar à favela uma metodologia de faculdades alemãs, mas a pandemia e a falta de recursos o fizeram  mudar de direção e refazer a rota.

Assim, em 2021, o embrião se desenvolveu e se tornou uma microempresa de Pesquisa e Desenvolvimento de Soluções para Favelas, deixando de ser uma fábrica-escola para entrar no mundo business, com venda de produtos e de pesquisa. Em 2022, será dado início à fundação do Instituto Infill, que tem como objetivo oferecer educação de qualidade na área de tecnologia. É a favela se digitalizando!

"A gente vai ter a startup de pesquisa e desenvolvimento e vai entrar no terceiro setor com um projeto de uma faculdade, um Instituto de tecnologia, dentro do complexo do alemão. A gente vai fazer esse sonho virar realidade."

O projeto é que essa faculdade seja de iniciativa público-privada e seja um espaço democrático, apartidário, onde será possível encontrar desenvolvimento tecnológico dentro das favelas cariocas. O início desse projeto será na favela onde mora, o Complexo do Alemão.

E, dessa maneira, a Infill caminha de “vento em popa”. No início do ano de 2022, estará no Sesc da Tijuca (RJ) para lançar uma primeira turma de fabricação digital, que será a primeira de muitas, já que está com alguns contratos para serem fechados. Além de cursos, a Infill também está atuando em consultoria e curadoria de eventos. A Nasa será pouco...a rota inevitável da Infill será do Complexo do Alemão para o mundo!


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